Marjorie

Nome: Marjorie

Mensagem

O nome oficial era Marjorie, mas também era chamada de “Kikilda” (por causa da “mamís” Kika, eram muito parecidas), “Mardieriki, riki, riki”, “Peste Negra”, “Dragãozinho de Comoro” (bafão), “Tormenta”, “Tributinho”, “Nhonha” (exclusivo da outra “mamís” humana), “Marge”, “Mardinha” e, a minha preferida, MINHA DEUSA (exclusivo meu).

Da sua ninhada, ela foi a mais danadinha. Enquanto sua “mamís”, por não ter a menor vocação para ser mãe (que passou para a Marge), se escondia em baixo da cama, ela se aventurada em busca da Kika e passava a noite mamando. Enquanto suas “maninhas”, apelidadas de “alfa” e “beta”, eram magrinhas, ela era gordinha, tão gordinha que nem sequer conseguia ficar em pé. Tinha que andar de ré por não conseguir se apoiar nas patas traseiras e, de brava, rosnava (costumam dizer que este momento foi a dica de quem ela iria se tornar, que deveríamos saber o que vinha pela frente). Rosnar sempre foi sua marca registrada. Aliás, rosnava para todos. A vó ficava chateada, a outra “mamís” humana queria torcer o pescocinho lindo dela e eu, achava graça.

Tinha uma personalidade marcante, única. Não aceitava desaforo, mas era desaforada. Tinha conflitos de emoções, já que latia e abanava o toquinho de rabinho ao mesmo tempo. Era dona da razão, mesmo com “tamanho de menos”. Dava “loucurinha” depois do banho, depois da tosa, depois que fazia cocozinho, quando voltava do passeio (como energia triplicada), até depois de tomar o remédio, sem nem mesmo esperar fazer efeito. Era encrenqueira. Arrumava briga com o “papís”, Toby, de onde surgiu a rinha de York entre a “Peste Negra” x “Gazela Saltitante”. Com o tempo, passou a encrencar com o “maninho”, Bartolomeu, que acabou revidando com o tempo. Era ciumenta, possessiva e teimosa.

Por outro lado, era carinhosa, companheira, querida, encantava a todos (que tinham a oportunidade de ela deixar conhecê-la); uma paixão. Tinha um jeito todo especial de fazer festa quando chegava em casa. Passava a patinha no meu rosto quando eu pedia para fazer carinho”. “Pedia desculpas” quando nos mordia sem querer (com muita súplica). Colocava a patinha sobre minha mão pedindo para brincar. Dava chute para chamar a atenção. Era parceira para causar, especialmente na madrugada, enquanto os outros queriam dormir. Foi minha melhor “colega de trabalho” na pandemia, aliás, adorava roer meu crachá.

Amava brincar, especialmente com tudo que era meu (principalmente minhas roupas). Tudo que era meu, ela achava que era dela e, de fato, era. Tinha que negociar minha mochila com ela. Tinha que barganhar a troca de um peça de roupa por outra. Tinha o estranho hábito de cavocar o chão antes de dormir. Adorava andar de moto. Eu tirava a tampa do baú e passeava com ela (e com o Bartinho) no baú da moto. Fazia pose, toda elegante.

Sempre quando ela aprontava, vinha a frase “tinha que ser a cachorra da Patrícia”. Sempre pedia provas mas, confesso, ao mesmo tempo que sabia que poderia ter sido ela, sentia orgulho, independentemente do que fosse, porque ela era minha cachorra.

Ela me acompanhou por muitas jornadas. Se adaptou a muitas mudanças. Se reinventou muitas vezes e, mesmo com o passar dos anos, sempre me surpreendida com sua inteligência, sempre vinha com uma novidade na arte de chamar a atenção, de se aconchegar em mim.

Tudo nela era perfeito. Tinha uma “bundinha” gostosa de apertar, uma boquinha e focinho lindos, as orelhinhas sempre em pé, patinhas delicadas, barriguinha gostosa de encher de beijos, em especial quando deitava de barriga para cima, olhinhos brilhantes, cheios de vida, que pareciam deixar transparecer sua alma e tocar a minha.

Para completar, ela quis deixar a marca dela ainda mais profunda, nos presenteando com a April e com a Foquinha.

A April foi um divisor de águas: antes e depois da April. Foi a “tormentinha” nascida da “tormenta”. Tinha que ser filha da Marge! Foi uma versão piorada da Marge, pois era desordeira, causava pânico onde passava, mas lembrada até hoje com muita saudade. Viveu intensamente. Foi responsável por mudar o comportamento, durante os passeios, da Marge e do Barth. Já a Foquinha foi muito especial. Nasceu com má formação nas patinhas dianteiras, mas nunca deixou de demonstrar amor pela vida e uma vontade imensa de viver (assim como a Marge). Nos ensinou sobre a pureza do amor. Nos ensinou a amar o “não normal”. Também sentimos muitas saudades dela.

Toda esta trajetória não podia ter passado sem sustos. Por duas vezes quis se aventurar sozinha no mundo. Aquela cachorrinha pequenininha solta neste mundão a fora. Quanto desespero. Mas passaria por isto novamente, pois significaria que ela continuaria aqui.

Dizem que temos o cachorro que merecemos, então, sou muito grata por ter a merecido. Não podia ter tido companheira melhor. Acho que foi enquanto ela rosnava em baixo da cama e andava de ré que nosso destino foi consolidado. Não mudaria nada na personalidade dela. Se tirasse algo, perderia toda a essência que compõe nossa história.

Por mais de 13 anos ela esteve comigo, mas, do fundo da minha alma, queria que tivesse sido mais alguns dias, alguns meses, muitos anos.

Jamais vou arrumar a parte da parede que ela roeu. Sempre doerá a hora do “mimir”, quando ela buscava um brinquedinho para levar para cama. Sempre ficarei esperando sentir sua patinha na minha mão. Sentirei falta de dormir na pontinha do travesseiro para deixá-la confortável. O silêncio do travesseiro será inquietante (fazia barulho quando tentava acetar minha mão para brincar). Sentirei falta do choro quando queria algo, quando mostrava o que queria ao ser perguntada: “o que tu quer Marjorie?”, dos gritinhos que dava quando queria avisar que tinham “esquecido” dela, do pulo que dava quando a pegávamos no colo (costumava dizer que um pouquinho mais alto ela sairia da órbita da Terra). E de tantas outras coisas que estão guardadas na memória, só esperando um pequeno gatilho para voltarem só para agigantar a saudade, além dos já presentes, como não ter que “devolver a mochila” ou as roupas ficarem onde estão. Foi dolorosa a primeira viagem sem ela. Nada será como antes.

“Mardinha”… Você foi valente quando, mesmo com dor, não deixou de pedir para eu brincar contigo, não deixou de me seguir, mesmo fragilizada. Minha guerreira, você me protegeu, me poupou de uma dor ainda maior. Você nunca deixou transparecer que você estava bastante doentinha. Sua força me cegou.

“Marge”… Não foi o fim que eu esperei, queria que tivesse sido de velhice, que eu pudesse ter te dito para partir e que eu ficaria bem, que você ficaria bem e que você iria voltar para “casa” com méritos. Queria ter te agradecido por absolutamente tudo. Não quis o destino que fosse assim, ao contrário, parece que foi você que quis me dizer que estava na hora e que era para eu ficar bem. Tive minutos preciosos com você. Você relaxou no meu colo, como tantas outras vezes. Deve ter dormindo como não dormia há alguns dias. Nada mudou a confiança, nem mesmo naquela situação. Queria que a última pessoa que você tivesse visto fosse eu, mas não foi. Eu estava lá, no andar de cima. Isso dói muito.

Você me deixou um exemplo de força de vontade de viver memorável. Além de minha Deusa, você passou a ser minha ídolo. Acho que por mais doloroso que seja, quero acreditar que tenha sido uma libertação para você. Basta pensar no quanto você deve ter sentido dor. Não precisava sofrer mais.

Marjorie, minha Deusa!… Dizer que você foi muito amada, não é suficiente. Dizer que você será para sempre amada, não é exagero. Você foi simplesmente perfeita.

Será sempre lembrada e amada por todos nós: Patrícia, Luana, Ester e Celso.

Te amo, minha eterna Deusa.